
No fim-de-semana passado, a minha mãe ficou sozinha em casa. No Domingo, como não me apetecia ir à praia, optei por uma tarde tranquila em frente à televisão a fazer-lhe companhia.
Espojada no sofá, com um pano da loiça no colo para amparar as migalhas, deliciava-me com uma enorme fatia de pão alentejano barrada com goiabada, enquanto dividia a atenção entre o filme e o pão com doce.
- Ó Xana! - Voz da minha mãe.
- Ó Xaaaanaaa!
- Que é? - Esforço-me para suster as migalhas.
- Anda cá! Anda cá depressa!
Nisto, e aflita que sou com a saúde e tudo o que gira à volta da minha mãe, dou um pulo do sofá, largo tudo pelo chão, a boca cheia de pão, quase que me engasgo e engulo tudo a duro, em dois tempos estou na cozinha.
- O que foi? O que foi?
- O Reggae... - Replica chorosa e inconsolável. - O Reggae... Esqueci-me que estava solto e abri a janela. Está aberta há mais de uma hora. Agora, quando dei conta estava ele no parapeito e voou lá para fora.
- O QUÊ? TU o QUÊ? - Lanço-me para a janela.
- REGGAE? REEEEEEGGAEEEE? Ó REEEEEGGAEEEEEEEEEEEYYYYYY? - Chamo entre lágrimas.
Nem vê-lo.
Entretanto, todos os vizinhos, que não foram de férias e se encontravam em casa, assomaram-se à janela, alertados pelo meu desespero.
- REGGAEEEEEEEE? REGGAEEEEEEEEEYYYYY?
- Reeeggaeeeyyyyy... Chuif... O meu Reggaeeeeey... Coitadinho, nem sabe a que janela do prédio regressar... Chuif... Ainda vai contra um vidro a tentar voltar para casa... - E lanço-me num pranto.
Eu e a minha mãe, agarradas uma à outra, desesperadas a chorar.
- REEEEEEEGGAEEEEEYYYYYYY? Estás a ouviiiir? Anda cááááá! Vai já para casa! - Tento uma última vez antes de me render às evidências de que nunca mais poria os olhos no meu penudo.
E dito isto, num pulito rápido, o sacana do bicho entra pela janela, salta do parapeito directamente para dentro da gaiola e encolhe-se no galho mais escondido da dita, tremelicoso.
Fechada a janela, ainda o tentei tirar da gaiola para lhe dar mimo, mas sem sucesso. Não arredou pé do canto.
Posto isto, entendi não ser necessária a aplicação de castigo a ninguém.
A minha mãe tão cedo não abre uma janela lá em casa. Ainda ontem grelhou peixe e "esqueceu-se" que o exaustor só por si não dá.
Por conseguinte, prevejo que a sua próxima peripécia seja um incêndio na cozinha.
O Reggae tão cedo não fica curioso em sair.
Não sei que susto apanhou o penudo lá fora mas aquelas andorinhas que habitam na parte superior da janela do meu quarto sempre me pareceram umas verdadeiras bullies do ar.
Voavam a rasar a janela, como quem procura comida, mas na verdade desafiavam-me o bicho que corria de um lado para o outro, doido, ao avistá-las.
Nunca me enganaram, as parvas. Devem ter-lhe feito a bonita.
Além disso, revelei-me uma óptima educadora. O Reggae obedece aos meus comandos tanto dentro como fora de casa.
Próximo passo: Arranjar um cão.