
0:30 a.m. Repasto: Sandes de presunto e queijo da Serra da Estrela da FIA, engolida a eito, seguida de entrada directa no mundo dos lençóis.
Ao terceiro ronco, já estava estendida na areia de uma praia deserta qualquer, náufraga a despertar para a realidade isolada. Ao meu lado, um Adónis desconhecido de cabelo escuro e olhos intensos demonstra preocupação com o meu estado.
O típico cliché de um naufrágio, numa ilha deserta com um bonzão. Bonzão moreno e musculado, letrado e de conversa sedutora. Logo, faíscas. Muitas faíscas. Este sonho promete! Venha ele, esfrego as mãos de contente.
“ Toc. Toc.” Um puto careca, de seus oito meses, bate no interior da minha barriga. – Tenho sede!
Absorvida pelo envolvente e saboroso enredo, ignoro.
“Toc. Toc.” - TENHO SEDE! – Secura na garganta, a língua é um coxo de cortiça ansioso pelo refresco do tintol. Assim ninguém avança... “Raios do puto inconveniente!”
Ensonada, levanto-me aos tropeções com os olhos colados pelas ramelas amareladas. Estico o braço, derrubo um frasco de perfume ("DOPE"!!!), acordando o prédio inteiro e os cães da vizinha do lado. Miraculosamente, não se parte (!!!) mas, entretanto, já dei uma valente joelhada no canto da mesa de cabeceira, deixando-me aos uivos, em competição com os canídeos esganiçados. Piso a escova de cabelo que deixei caída no chão, tropeço no calhamaço que me socorre nas insónias (Duplo "DOPE"!!!) e tombo com o rosto de encontro ao chão. A custo, movo o maxilar dorido e esfrego os olhos, limpando as ramelas. Lá dou de caras com a garrafa de água, que imediatamente despejo em “glups” guturais.
Cama. Boa, boa! Apanhei o fio à meada e estou, novamente, frente ao Adónis. Momento romântico. O crepitar da fogueira, o canto dos grilos e o barulho das ondas do mar como banda sonora. À nossa volta,
chalet e
spa, equipados com cozinha industrial e sofás de pele de mosquito, construídos a suor com pedaços de barbante, folhas de palmeira e restos do bolo da minha tia Bia (mistura potente já patenteada e vendida à NASA, como a substância mais dura e resistente do mundo).
Abraçados, envolvidos. A Alexandra a espetar os lábios de encontro aos carnudos do Adónis. O Adónis a espetar os lábios de encontro aos sensuais, bem desenhados e devidamente hidratados da Alexandra... vai...vai...
“Toc. Toc.”, outra vez o puto. – Xixi.
Ignoro. Atordoada, volto ao cenário paradisíaco. Espeto novamente os lábios.
“Toc. Toc.” - Xixi!
Ignoro. Já a espumar sem paciência, o moreno apetitoso cruza os braços de Popeye e atira o lábio inferior para fora, amuado.
- “Toc. Toc.” - XIXI!!! QUERO FAZER XIXI!
- Ó MEU CAB***ZINHO, DO CAR****! SE NAO TE CALAS JÁ, DAQUI A NADA ESTÁS A IR A BADAJOZ! AI ESTÁS, ESTÁS, MEU MERD***!
Azar do catano, ao menos o da Ally Mcbeal dançava com ela...