
- Maria Alexandra, ainda tens a janela aberta com a luz acesa??
- Não! Já a fechei e desci a persiana! – Minto.
É um facto. Sou descuidada.
Não direi desleixada mas quando não tenho paciência, sou do contra. Especialmente com certo tipo de “recados”.
O que acontece quase sempre.
Estava a proporcionar um belo espetáculo aos vizinhos da frente.
Calma.
Segurem lá a imaginação fácil.
Não me estava a despir ou algo do género holliwodesco.
Quanto muito um pulito ou outro ao som da “Your song”, da banda sonora do “Moulin Rouge”.
Mas nada que fosse prender a atenção a algum mirone mais atento. Nada de pele à mostra ou movimentos sedutores. Era a “your song”.
O espetáculo foi mesmo o quarto todo à descoberta, dezenas de biquinis espalhados sobre os móveis e chão depois da decisão difícil que tive de tomar pela manhã.
Saio do quarto, fecho a porta, deixo a dita aberta com a luz acesa.
Só para contrariar.
Duas horas depois de ressonos no sofá, volto ao quarto.
Fecho a janela e corro a persiana (Não estavam à espera que fosse dormir assim, certo?).
Deito-me, aconchego os lençóis e abraço o ursinho, o único boneco que ainda mora no meu quarto e não no empoeirado sótão. Um urso de peluche castanho escuro da Ralph Lauren, oferecido pelo meu ex-namorado da faculdade.
Que ainda dorme comigo, não porque tenha saudades do finado, mas porque acabei por me afeiçoar ao escurinho e à falta de urso maior, adormeço agarrada a este.
Desejo-lhe as boas noites com um beijo sonoro, e semicerro as pálpebras, fitando o tecto.
Pisco os olhos três ou quatro vezes, foco a mancha escura no tecto e...
- Aaaaaaaaaaaaaahhhhhhh!
-Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhh!!!
Grito. Despejo os pulmões, abano o sininho da garganta, dou o máximo dos acordes pela goela.
Pulo da cama, saio a correr e fecho a porta com um estrondo.
-Aiiiiii...aaaaaiii...aaaiiii!!!
- Maria Alexandra, estás louca???? O que se passa???
(Havia acordado a casa e, mais tarde, constatei que o prédio também.)
- Tenho... Te...hic (soluço)...Tenho uma...ma.. osga...ga... no quarto!!!
- Ai, sim??? É bem feita!! Fechasses a janela! Agora aguenta-te.
As palavras finais do meu pai. Da minha mãe nem um pio pois, há bons anos atrás, esta senhora havia fechado à chave na cozinha a mulher a dias para que esta matasse à vassourada, intrusa rabuda semelhante.
Sim, a mulher a dias aos gritos na cozinha a dizer que se despedia e que ia chamar a polícia.
Nesse aspecto e quanto a esse ser, ganhei a coragem da minha mãe.
Tranquei a porta do quarto, desistindo de todo o MEU conforto.
Mal fechei os olhos no sofá da sala.
Acordei Quasimoda, e escrevo-vos agora, aqui, na minha secretária do escritório, olheirenta, sem maquilhagem, descabelada, elegantemente vestida com um fato de bombazina em pleno Junho, o mais fresco que consegui do armário do corredor.
Esperançada.
Que a Umi seja mais corajosa que a antiga Rosa e espanque, destrua, esquarteje violentamente a criatura à vassourada.
Que, quando chegar hoje a casa e abrir a porta do quarto, o único rasto da asquerosa que irei encontrar seja um muco gelatinoso esverdeado na parede no quarto e os restos mortais tenham sido diligentemente despejados sanita fora com um brilhante toque de autocolismo.