segunda-feira, janeiro 05, 2009

A culpa é de cada um de nós


No quarto ano, a escolha não foi difícil.

Abriram a opcção ciências jurídico-comunitárias e internacionais. Era a minha cara e a minha paixão. Tive "sorte". A menção mais aliciante numa época em que o direito internacional dava passos importantes.

Acompanhei a elaboração dos estatutos do Tribunal Penal Internacional, através da cadeira de Direito Internacional Público e, mais vivamente, através da Associação Europeia de Estudantes de Direito (ELSA). Vivi as convenções de Genebra e as que pareciam contribuir para uma justiça mais alargada.

Vislumbrava-se um mundo mais justo, mais seguro e protegido dos estados que se impõem a todo custo. Vislumbrava-se um mundo onde não seria possivel ocorrer novas invasões, tortura, ofensas a civis, genocídios. Onde os direitos fundamentais seriam finalmente reconhecidos e respeitados.

O meu destino, Bruges, foi protelado por um estágio de advocacia. Já sabia que seria a única forma de conseguir completá-lo. Logo a seguir ao curso ou nada feito.

Ficaram alguns trabalhos que envolveram direito internacional, enquanto profissional.

O resto foi protelado.

Tal como o direito internacional.

Acabado, executado em praça pública. A Convenção das Nações Unidas é inútil e impraticável. O Tribunal Penal Internacional não teve o alcance mínimo desejado. Os que cometem crimes internacionais são intocáveis.

Folhas e folhas de consensos, conseguidas gota-a-gota, deitadas ao lixo da vergonha internacional.

Assistimos à arrogância e prepotência de uma nação que se impôs sem justificação aceitável e comprovada.

Afeganistão.

Iraque.

O silêncio nas atrocidades que todos fingimos não ver.

O que se passa na faixa de Gaza, o momento escolhido não é inocente. Ainda temos um vergonhoso Bush na cadeira. há-que aproveitar antes do início da era de Obama.

Ainda assim, a culpa está não apenas no Sr. Bush. Seria demasiado irresponsável afirmá-lo.

A culpa está em todos nós. Que ignoramos. Que fechamos os olhos. Que não levantamos a voz e a ajuda. Que também não respeitamos as convenções de direito internacional conseguidas a custo.

Se ainda temos crianças e inocentes que são mortas todos os dias, por uma guerra que não lhes diz respeito,

Se, ainda hoje, centenas de mulheres, com não mais de quinze anos, se imolam para fugir aos maus tratos aplicados pelos maridos,

Se, ainda hoje, são chacinadas pessoas simplesmente porque têm a côr, sexo, nação, religião errada,

Se, ainda hoje, os direitos de uma nação não são respeitados por fundamentos comerciais mascarados,

Se, ainda hoje, acontecem todas estas e muitas outras atrocidades,

A culpa é de cada um de nós.

Porque fechamos os olhos.

Hoje, acordei a sentir muita vergonha de mim própria.

5 comentários:

Jedi Master Atomic disse...

É bem verdade. Cada um de nós deve tentar ser e dar o melhor a este planeta. De retorno receberemos a sua gratidão !!!

Lita disse...

Concordo em pleno! Falamos dos governos, do sistema, do país. Que é nosso. Nós somos tudo isso. Só não assumimos.

pensamentosametro disse...

Concordo contigo palavra a palavra.
A culpa é sempre nossa que nada fazemos. Mas é tempo de mudar mais do que tempo.


Bjos


Tita

Textículos disse...

Não sejas tão cruel contigo própria. É verdade que poderíamos fazer mais, ainda assim seria impossível, infelizmente, acabar com toda a injustiça no mundo.

Ainda assim como afirmou Gandhi "Se queres mudar o mundo muda-te a ti próprio". Faça-mo-lo então!

Já agora não esqueçamos também a tragédias que estão a acontecer no Congo, Darfur e Zimbagwe.

as velas ardem ate ao fim disse...

Plenamente de acordo!

um bjo