sábado, janeiro 20, 2007

Viagens


Sexta-feira, dez da noite. Frente a frente, vão sentadas quatro pessoas. Três mulheres e um homem. A carruagem do metro para nas Laranjeiras, entra uma mulher com o filho nos braços e sentam-se nos bancos do lado direito. A criança, que não devia ter mais de dois anos, brinca no banco e vai fazendo comentários acerca de alguns passageiros. “Aquele senhô que saiu é um maroto!” (risos pueris) “Mãe, mãeeeee, aquele senhô é peto, não é?” (mais risos).

Três mulheres e um homem. Ele, com a cabeça afogada no Diário Económico, relia, pela enésima vez, o artigo correspondente ao espaço jornalístico comprado pela sua empresa. Ou simplesmente pensava nos bilhetes para o próximo jogo do Benfica. As mulheres, embevecidas, sem qualquer noção da sua figura, fitavam a criança, como quem olha para uma sobremesa proibida. Eu até jurava que quase se via o fiozinho de baba a sair daqueles sorrisos descontrolados…

Apercebendo-se que não passava despercebida, a criança continuava a brincadeira, como um verdadeiro artista presenteia os seus espectadores. Com aquela graça que apenas os miúdos têm. Espreita pelo encosto do banco e faz caretas alegres aos mais distraídos.

“Próxima estação, Marquês de Pombal. Há correspondência com a linha ama…” – “Já?” – penso – “Realmente o bichinho feminino é cá uma coisa…” Pestanejo.
O homem enfiava cada vez mais a cabeça no jornal, notoriamente alheio ao resto do mundo. Por sua vez, as mulheres, impávidas, completamente torcidas para o lado, estavam com o mesmo ar que os bonecos animados têm quando levam uma pancada na cabeça e vêm os passarinhos a chilrear à volta. Passarinhos azuis e gorduchos a ensaiar voos elegantes à volta daquelas cabecinhas. Trinados harmoniosos. Oiço trinados harmoniosos. Pestanejo outra vez e acordo para a dura realidade. Eu era uma delas… P.D.I.!!!!!!

No dia seguinte, Sábado, novamente no regresso das piruetas ginasticadas do Wellness, lá estava a percorrer o mesmo trajecto. Desta feita, o relógio marcava as 13h15. “Agora é que não me apanham.” O cansaço ajudou e, após ter despachado vorazmente o pastel de maçã comprado no Celeiro, encostei-me, abracei a mochila, estiquei um pouco as pernas e cerrei os olhos com aquela vontade enorme de não os voltar a abrir tão cedo.

“Moça, moça!” – Sinto uma leve pancadita na minha mão. – “Nossa, que unhas lindas! Deixa eu ver.”

Meio a dormir, meio acordada, lá estico as mãos, digladiando-me com o porquê de estar a ser acordada por duas estranhas só para me verem as unhas. Abro os olhos a custo e sinto a voz ainda entaramelada resultante da sesta improvisada. “Nossa, é você quem faz?” As duas brasileiras pareciam animadas e lá debitaram as mil dificuldades de manter umas unhas bonitas. Sorriso amarelo e agradeço. Sempre é melhor que estar a babar por ver uma criança…

“Próxima estação, Senhor Roubado…” Agarro a mochila, despeço-me com uma “boa tarde” e apresso-me para a saída.
Com sorte, amanhã ainda encontro o João Baião aos pulos no metro. E querem vocês que deixe de utilizar os transportes públicos…

7 comentários:

disse...

gosto do teu discurso

Jorge disse...

Por muito que me elogiassem... Acordar-me por causa das unhas?

Entre nós haveria uma grande diferença: a inversão de acções.

Tu ficaste babada depois de acordares, eu já estaria babado antes de me acordarem (que só por isto não aconteceria).

Alexandra disse...

Jorge

Tocaste num ponto nevrálgico! E tens toda a razão!

Na volta, as moças estavam incomodadas com o balançar constante da minha cabeça (que se auto-arremessava contra o vidro da carruagem com força considerável) e com o fiozinho de baba a escorrer da minha boca e resolveram salvar-me da minha própria figura!

Ainda assim, desde que não partisse o vidro (as finanças não dão para essas extravagâncias), preferia não ter sido incomodada...

Anónimo disse...

Devias era contar a vez em que resolveste arrancar o telemóvel a um passageiro e atirá-lo para o fosso do metro...

Jokas

Pipa

Alexandra disse...

Fica prometido!

Não sei o que me deu mas o nojentinho estava a pedi-las!

Rafeiro Perfumado disse...

Como é bom ver que não sou o único a divertir-me ao andar de metro...

Jorge disse...

Antes o vidro. Com cortes e fugas a jorrar sangue posso eu bem.