Os bilhetes estão praticamente esgotados e falam em fazer um segundo dia de espectáculo.
Já agora, uma tournée, no mês de Agosto, pelos caminhos e vilarejos de Portugal...
Os bilhetes estão praticamente esgotados e falam em fazer um segundo dia de espectáculo.
Já agora, uma tournée, no mês de Agosto, pelos caminhos e vilarejos de Portugal...

Hoje estou visivelmente cansada.
Foi a custo que evitei dormir no Metro com a boca aberta.
É compreensível. Estamos quase no final da semana, o descanso é nulo e ontem saí da academia às 23h30, após uma aula de Jazz e outra de barra-de-chão, sendo que esta última é coisa para, no dia seguinte, deixar no corpo uma sensação de atropelamento causada por um camião cisterna.
Nestes dias, opto sempre pela roupa mais confortável possível para minimizar o incómodo que já tenho. Hoje não foi excepção. Calças de ganga, uma camisola larga daquelas que caem sobre o corpo e mal se sentem e sandálias rasas.
Asneira. Porque deveria esquecer o senso comum e saber que, para mim, calças de ganga justas e calçado raso são uma péssima combinação, já que tenho este pé que Deus me deu, e aguento muito melhor uns saltos do que uma plataforma que obrigue o pé a ficar completamente chato.
Ora isto significa que a locomoção fica bastante dificultada. Pernas doridas-calças justas e sandálias rasas foi mesmo o piorzinho que consegui, tivesse apertado um cinto sob o peito, estaria no verdadeiro inferno.
Há pouco, resolvi ir aqui ao lado, às Amoreiras comprar almoço. Algo vitaminado que me suportasse pelo resto do dia. São cinco minutos de caminho.
Cada passo foi um sofrimento.
Uma cruz às costas.
Qual cruz, eu arrastei verdadeiras bigornas de chumbo.
Cheguei ao final da rua e detive-me, junto à passadeira, a ofegar, com desconforto. Sem forças. Com dores.
- Está bem, menina?
- Sim, Sr. Agente. É só cansaço, obrigada.
- Mas olhe que não parece muito bem.
Dito isto, para meu espanto e perplexidade, lança os braços à minha volta e pega-me ao colo.
- Deixe estar que eu levo-a. Para onde vai?
É que nem surpresa nem meia surpresa. Ao invés de espernear e exigir que me devolvesse à terra, dou por mim, com o conforto do corpo suspenso e seguro, a saborear aquele momento, a aninhar-me no seu peito por largos segundos, sem reacção contrária à investida, só depois ganhando coragem para recuperar as forças, pôr uma cor nas faces e envergonhada e firmamente dizer:
- Sr. Agente, por favor coloque-me no chão! Eu estou bem! (Ai mas que bem que sabe o seu colo!)
Descansem. Foi exactamente o que fez.
Largou-me e deixou-me seguir caminho, não sem primeiro se certificar que estava efectivamente bem.
Lá segui, com o meu orgulho feminino, rezando para que ninguém conhecido tivesse assistido à cena.
Ainda assim, o caminho de volta foi severo e penoso.
Por mais que tente ignorar, está escrito.
É até mesmo uma Lei Natural.
Tivesse eu capacidade para ser donzela em apuros e seria muito mais feliz (e descansada).


Dores, cansaço e chocolate.
Basicamente resumem o meu estado no dia mundial da dança.
Mas isso não interessa nada pois eu quero é falar de homens. Ou dos homens. Bem... das mulheres.
Isto tudo para dizer que um dos principais motivos de galhofa e contentamento feminino nos ensaios é uma nova e boa aquisição masculina, que é nada mais, nada menos que o meu par no Cell Block Tango.
Como disse, nova e boa. Em todos os sentidos. Para além de ser recém-chegado às lides do Jazz 2, a criatura conta com dezoito aninhos acabados de fazer. Dezoito aninhos mas daqueles espalhados por um rosto moreno e um corpo de perdição que fazem com que levemos o tempo a repetir "Ele só tem dezoito anos". ELE SÓ TEM DEZOITO ANOS.
Depois não é só o físico. É dedicado, concentrado, inteligente, charmoso, com carisma, dança bem, aprende rápido, sabe pegar numa mulher. Ainda tem lá as suas quinhentas modalidades desportivas que pratica, mais as artes marciais, com ar de Van Damme de trazer por casa ou pela pista de dança, muito aprumadinho mas com cara de quem parte muitos pratos, copos e toda a baixela da Vista Alegre. Enfim, uma delícia irrecusável mas com o rótulo dos dezoito. Deve ser a palavra que mais repetimos. Dezoito.
Dezoito. DEZOITO. DEZOITO!
Chego até aqui para confessar que gosto de o admirar. De lhe passar a mão pelo pêlo, de acordo com a coreografia, com a intensidade que merece. Mas não me consigo imaginar, não imagino mesmo rebolar com ele, numa cama, chão, mesa de cozinha ou balneário.
Tão somente porque, apesar da sua maturidade, dezoito são dezoito e nestas coisas das relações, gosto de quem me mostre o mundo. Não tenho vocação para guia. Quanto muito, parto à descoberta conjunta (e se gosto da descoberta conjunta) mas gosto mesmo de ver que existem umas quantas páginas já escritas, sofridas, amadas.
Neste dia de dores, chocolate e cansaço, marco e trato dos últimos arranjos para a minha viagem.
Sempre quis fazer uma viagem sozinha. Daquelas de mochila para descobrir Vietnames, Cambodjas, Costas Ricas. Agora vou para aqui.
Uma garota sozinha no Rio.
Não é engraçado?
Estou completamente sem motivação. Viajar sozinha, sim mas não para o Rio.
É que, desde nova, dou provas do meu talento para a estupidez.
Isso ou serei raptada, arrastada para a uma favela e ninguém dará pela minha falta.
Pelo menos até dia dezanove.
E depois?
Depois quero saber quem é que traz os biquinis!
Como já oiço e atesto há muitos anos, "Quem dança é muito mais feliz!"
Preciso mesmo relaxar.
Sim, hoje, segunda-feira, necessito de umas quantas massagens, horas de cama, de sono, de ronha. de fazer nenhum.
Pode parecer estranho, mas pressinto que não chegarei viva até ao dia 3 de Julho.
Coreografias já conto sete e falam-me em mais. Ora bem, What a feeling (Flashdance), Cell Block Tango (Chicago), Ballet que ainda não sei qual é, Ne me quites pas (Contemporâneo), Salsa, Audition (Chorus Line), juntem agora a America (West Side Story). Entretanto, piscam-me o olho com a Time of my Life (Dirty Dancing) e Fame. O Miguel já disse que ainda há mais. Ri-se e não se descose.
É duro. São as músicas da minha vida. Com as quais crescemos a sonhar deslizar nos braços do Patrick Swayze. Como dizer não? Além do mais, este ano a nossa capacidade é outra. Daí porem-nos à prova.
Não calculo como conseguirei mudar de roupa entre as mesmas. Estupidamente, este é o meu maior stress.
Ou aguentarei com tanto ensaio.
Ou a desilusão de tanto trabalho para se esfumar em hora e meia.
Naturalmente, até lá seremos uns chatos. Só saberemos falar, pensar, respirar coreografias, papéis, músicas, ensaios. Não se nota já?
Isto é só um desabafo, gente.
Como imaginam, estou a adorar. Não obstante, uma ambulância no local não será má ideia.
Fica então uma para relaxar.
Ora bem, é um facto.
Até dia 3 de Julho, nem eu nem os meus colegas conseguiremos pensar em mais alguma coisa que não seja dança.
Ok, um pouco de trabalho também. E sexo... mas a ideia a reter é dança. Dança, dança, dança. (Falar também será difícil, preparem-se.).
Sendo assim, uma das grandes preocupações femininas é a dieta. Tanto os figurinos (Já viram o Cell Block Tango?), como o facto de os homens terem que nos elevar, de um lado para o outro, o propiciam. Sim, a nossa preocupação nem é estética. É mesmo eles poderem connosco.
Portanto, amiga e compreensiva que sou com a classe masculina, já principiei um certo cuidado com a alimentação.
Uma vez que o meu trabalho tem exigido uma rotina que implica levar almoço de casa (e, pela primeira vez na vida, desde os tempos do colégio, aprender o que isso é), hoje de manhã, decido fazer uma bela salada de alface acompanhada de rissóis de camarão, da marca Continente.
Sete da manhã, e um cheiro insuportável a fritos, na cozinha. O Reggae furioso pelas penas oleadas e pela janela escancarada que não lhe permitiu ter ordem de soltura logo cedinho, como é costume.
Lá acomodei a meia dúzia de rissóis entre duas ou três folhas de alface, no tuperware (Sou oficialmente uma bimba da periferia.), tremelicando o lábio inferior a contragosto, pois muito me custam estes regimes dietéticos desprovidos de alimentos lascivos.
Posto isto.
Senhor Belmiro,
Reconheço que estamos em época de crise e que a poupança pode ser o ganho.
Mas daí a ter engolido os seis rissóis, tacteado o seu interior, um a um, com a língua, espreitado, certificado, não se compreende porque é que só no último é que encontrei vestígio de metade de um camarão do tamanho dos camarões vendidos em Alcácer, mais seco, enrugado e chupado que as minhas mãos no inverno.
Telefono para casa, peço à minha mãe para ler o rótulo da caixa.
"Ingredientes: blá, blá, essência de camarão."
Essência de camarão? Quer isso dizer que me calhou o brinde?
O camarão explorado, chupado, do qual retiraram a ferros a essência para meia dúzia de rissóis (Julgava eu que as essências eram sempre mais caras por serem concentradas.).
O desgraçado que deu o suco, o sabor ao manifesto?
Sr., Belmiro,
Para a próxima, faça como se faz com os toiros de lide.
Retire-lhe a essência mas premeie com uma aposentação num oceano desafogado.
Ou preencha-lo de botox.
Não o traumatize mais num rissol, com a carne seca e encorrilhada.
É que o dito estava mesmo enfezadinho.
Para além de saber a nada.
Nota: Atenção que os da foto estão fora da validade pois datam de 29/03/2007. A não ser que pretendam camarões corrosivos, em vez de encarquilhados.
Mas três já cá cantam.
Baryshnikov, aqui vou eu!
Grrrrrrrrrr...
Branco é, galinha não o põe.
Nossa, vá tomar sol, garota!
A sexta de Strauss dá para isto.
Logo, boneca de trapos. Emíííííliaaaaaa!