Ontem, convencida (e subornada com aulas de surf) por uma amiga, tive o meu primeiro blind date da vida.
Supostamente, um amigo dela que me havia avistado num jantar de aniversário qualquer e "que nunca mais me esqueceu", "Ai, a Alexandra... Tens que me apresentar!".
Passados dois meses, lá me venceu pelo cansaço e acedi ao pedido (Ok, e pelas aulas de surf.)
O rapaz levou-me a jantar, num sítio muito agradável, ambiente a média luz.
Simpático, sem dúvida, a conversa chegou ao ponto inevitável.
- Ai faz dança? Deve ter uma óptima flexibilidade.* - Deixa estupidamente escapar com um sorriso de orelha a orelha.
É inevitável essa admiração masculina pela flexibilidade. Faz parte do imaginário viril, do rol de fantasias passadas de geração em geração, de amigo em amigo, de "mine" em "mine", tremoço em tremoço, de futebolada em futebolada, durante os típicos encontros de male bonding.
Já no ginásio, bastar-me-ia dirigir à zona dos alongamentos, para ver aquelas cabecinhas másculas seguirem-me com o olhar. Embevecidos, bocas abertas, esquecem os exercícios, fitam cada alongamento com o pensamento longe e os olhos trocados.
Não há homem que não alegue a flexibilidade para fazer parte do top de características femininas apreciadas. Em qualquer conversa entre homens, lá surge a dita flexibilidade. Faz parte dos mitos, das loiras, das mamas.
No entanto, como em muita matéria do foro masculino, tal não passa de isso mesmo. Conversa.
Sim, meus caros, não adianta estrebucharem.
Não adianta mesmo porque perante a dita, perante a existência ao vivo, a cores e a tacto da flexibilidade, das duas uma:
Ou não sabem o que fazer com ela (Flexibilidade de um só não chega. It takes two to tango.).
Ou arrepiam-se perante a sua presença, saem a correr e chamam a mãezinha.
Posto isto e perante o comentário do moço, respondi:
- Tenho, claro! Quer ver? - Então, estico os dedos da mão até formarem uma meia lua, desafiando a formatura óssea.
O sorriso parvo dá lugar a um mais esverdeado e encolhido. Tal e qual ao do PT, quando lhe pedia para me alongar as costas e me sentia as vértebras.
Em seguida, CRAAAACK!- Estalo os dedos um por um ao fechar a mão.
- Agora imagine no resto.- Pisco-lhe o olho.
Depois disto, o jantar não demorou muito.
Presumo que o moço tenha sofrido uma hérnia discal com a demonstração.
*Salvaguardo já que nem por isso. Sou a avó ferrugenta da escola. A providência abonou-me apenas de umas costas, braços e pés muito flexíveis. As pernas, simplesmente, não foram dotadas de dobradiças, pelo que um split é algo que não sai, pelo menos sem oito ou nove caipirinhas e uma visita directa ao hospital.













